sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Ninguém me peça, tente, exija, que regresse à clausura dos outros.

 



[Paul Coze/ Novas Cartas Portuguesas]

Que a distância no amor é como vento em incêndio


Teremos mesmo de deixar
no seu lugar
entregues à sua sorte,
Estas montanhas de terra,
Que no entanto têm formas de seios
E respiram
Teremos de deixar que formem
essa frente azul
Diante da qual passamos
Nós com a nossa fúria
E demasiada carne
[Guillevic]

sábado, 29 de agosto de 2026

Soletremos a morte como a uma amiga muito querida a quem sempre olhamos de soslaio

As coisas que existiam antes de tu morreres

e as coisas que surgiram depois:
Às primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente
debaixo da minha resma de camisas,
algumas peças de musica, e o cão
sarnento que por aí anda
com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.
Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.
As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.
Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.

[Henrik Nordbrandt]

Modus operandi


porque eu, o mundo e a língua

somos um só desentendimento

[Herberto Helder]

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Porque o calor, ah! o calor

Adoro el invierno. Es el depositario de mis culpas. Es la bolsa achacosa de los remordimientos. ¡Creer que esta soledad, este desamparo, esa desesperación, esa angustia se deben al frío!

[Alejandra Pizarnik]