terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cantarolar de lábios encostados à parede


Sei que firme e fugaz aguarda sempre

junto do meu coração desabitado;

sei que um mínimo gesto bastaria
para o deixar entrar e não estar só.
Mas eu reforço paredes, vidros, portas;
peço ajuda a filósofos antigos:
«O que nada tem nunca perde nada;
tem todas as coisas quem nada deseja.»
Ouço os seus passos, seu rondar contínuo;
perto da minha janela canta e ri:
«Abre um momento, abre, quero dar-te
rosas vermelhas embriagadoras.»
Estou pronto para resistir, pronto
para longo assédio, fome, desamparo:
«Vai-te embora, amor, deixa-me em paz;
a ventura que me trazes dá-a aos cães.»

[José Luis García Martín]

domingo, 4 de outubro de 2026

He venido al desierto de mi palabra oscura


Mesmo alguém que tenha o azar de nascer no país de uma grande literatura deve escrever na sua língua, como um judeu checo a escrever em alemão ou um uzbeque a escrever em russo. Escrever como um cão a escavar a sua cova, um rato a abrir a sua toca. Deve, para isso, começar por encontrar o lugar do seu próprio subdesenvolvimento, do seu próprio jargão, do seu próprio terceiro mundo, do seu próprio deserto.

[Deleuze & Guattari, 1975]

sábado, 3 de outubro de 2026

Quem sabe ler, treslerá

Renego o coração

e também a morte.
É sempre por piedade
pelos outros
que nos deixamos meter num esquife,
que nos deixamos enfiar
no buraco cavo,
oco de cânfora
e de sangue avermelhado.

[Antonin Artaud]

sábado, 26 de setembro de 2026

Moving so fast towards nothing


Ama-me. Embora eu te pareça 

Demasiado intensa. E de aspereza.

E transitória se tu me repensas. 

[Hilda Hilst]

domingo, 20 de setembro de 2026

A luva de veludo como um suspiro entre as pernas


Querida Sue:

Os entes queridos são incapazes de morrer, 

pois o amor é imortal.

Além do mais,  é divino.

[Emily Dickinson]

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Ninguém me peça, tente, exija, que regresse à clausura dos outros.

 



[Paul Coze/ Novas Cartas Portuguesas]

Que a distância no amor é como vento em incêndio


Teremos mesmo de deixar
no seu lugar
entregues à sua sorte,
Estas montanhas de terra,
Que no entanto têm formas de seios
E respiram
Teremos de deixar que formem
essa frente azul
Diante da qual passamos
Nós com a nossa fúria
E demasiada carne
[Guillevic]