sábado, 17 de outubro de 2026

As águas não raro salobres do afecto


Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento.

Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

[Bertolt Brecht]

Uma flor no mar


Descalça vai pela neve:

Assim faz quem Amor serve. 


[Luís de Camões]

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sem eira nem beira


Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo.

[Guimarães Rosa]

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cantarolar de lábios encostados à parede


Sei que firme e fugaz aguarda sempre

junto do meu coração desabitado;

sei que um mínimo gesto bastaria
para o deixar entrar e não estar só.
Mas eu reforço paredes, vidros, portas;
peço ajuda a filósofos antigos:
«O que nada tem nunca perde nada;
tem todas as coisas quem nada deseja.»
Ouço os seus passos, seu rondar contínuo;
perto da minha janela canta e ri:
«Abre um momento, abre, quero dar-te
rosas vermelhas embriagadoras.»
Estou pronto para resistir, pronto
para longo assédio, fome, desamparo:
«Vai-te embora, amor, deixa-me em paz;
a ventura que me trazes dá-a aos cães.»

[José Luis García Martín]

domingo, 4 de outubro de 2026

He venido al desierto de mi palabra oscura


Mesmo alguém que tenha o azar de nascer no país de uma grande literatura deve escrever na sua língua, como um judeu checo a escrever em alemão ou um uzbeque a escrever em russo. Escrever como um cão a escavar a sua cova, um rato a abrir a sua toca. Deve, para isso, começar por encontrar o lugar do seu próprio subdesenvolvimento, do seu próprio jargão, do seu próprio terceiro mundo, do seu próprio deserto.

[Deleuze & Guattari, 1975]