terça-feira, 3 de março de 2026

Eu que sou João de nada

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

[ Eduardo Galeano]

domingo, 1 de março de 2026

Elegia pelo meu pai

 2 - RESPOSTAS

Porque viajaste?
Porque a casa estava fria.
Porque viajaste?
Porque é o que sempre fiz entre o crepúsculo e a aurora.
O que vestiste?
Vesti um fato azul, uma camisa branca, uma gravata amarela e
meias amarelas.
O que vestiste?
Não me vesti. Um lenço de dor manteve-me quente.
Com quem dormiste?
Dormi com uma mulher diferente em cada noite.
Com quem dormiste?
Dormi sozinho. Dormi sempre sozinho.
Porque me mentes?
Sempre pensei que te dizia a verdade.
Porque me mentes?
Porque a verdade mente como nenhuma outra e eu amo a verdade.
Porque partes?
Porque nada significa já muito para mim.
Porque partes?
Não sei. Nunca soube.
Quanto tempo deverei esperar por ti?
Não esperes por mim. Estou cansado e quero descansar.
Estás cansado e queres descansar?
Sim, estou cansado e quero descansar.
paul strand

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

The great unknown


I feel very small. I don't understand. I have so much courage, fire, energy, for many things, yet I get so hurt, so wounded by small things.

[Anais Nin]

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O de não saber onde se ir - -


Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo

Na casa antiga da quinta velha.

[Álvaro de Campos]

domingo, 21 de setembro de 2025

Mas a alegria demora-se;

 

Desejaria estar em cima, no meio da alegria.

e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse

a melancolia da minha inocência.


[Herberto Helder]

quarta-feira, 23 de julho de 2025

A revelação

James Hillman, psicólogo analítico norte-americano, pós-junguiano e fundador da Psicologia Arquetípica, ensina-nos a olhar a traição com os olhos da alma. Ele não pergunta "quem errou?", mas "qual o daimon que se libertou com este acto?" O daimon, segundo a tradição grega e resgatado por Hillman, é o nosso padrão de alma, uma centelha divina que transporta o nosso destino interno. É ele que nos guia silenciosamente desde o nascimento, e por vezes empurra-nos a trair o exterior para sermos fiéis ao interior. Porque por vezes, é preciso trair um voto para ser fiel ao Self. É preciso quebrar uma promessa para se cumprir o destino interior.

O traído atrai a traição porque permanece na inocência do Éden. Espera amor absoluto, fusão garantida, fidelidade eterna. Mas a saída do paraíso é necessária para que o ego se separe do Pai e inicie o caminho da consciência. Toda traição é uma expulsão simbólica do Éden: a perda de uma protecção ilusória para o encontro com a verdade psíquica.
No mito crístico, o Pai também trai o Filho. Jesus, na cruz, clama: "Pai, porque me abandonaste?". A dor da traição é total, e ali reside a grande escolha: permanecer no trauma, afundar-se no cinismo, ou transformar essa dor numa nova visão. A ressurreição é a alquimia dessa traição. É o momento em que o Cristo humano se eleva ao Cristo divino, não por ter evitado a dor, mas por a ter atravessado. E então diz: "Pai, obrigado por me teres glorificado". Esta frase encerra o mistério profundo da individuação: aceitar a ferida como via de ascensão.
A traição é portanto um portal. Humilhante, sim. Doloroso, sem dúvida. Mas também criador. É através dela que descobrimos a diferença entre amor e dependência, entre fidelidade e medo, entre promessa e verdade. É ela que nos obriga a crescer, rever valores, reatar com a coragem de viver com olhos abertos.
Olhar a traição com a lente de Hillman é abandonar o moralismo para escutar o simbólico. É perguntar: o que me veio revelar esta dor? A que parte de mim fui infiel? A quem servi com a minha lealdade?
A traição deixa de ser apenas quebra para ser também revelação. Não se trata de celebrá-la, mas de compreendê-la. De perceber o que em nós teve de morrer para que algo maior pudesse nascer. E de aceitar que, em certas encruzilhadas da vida, o mais fiel que podemos ser é ao nosso próprio caminho.
[James Hillman]

quinta-feira, 17 de julho de 2025

De vires ou um barco contra o vento

 

Falei de ti com as palavras mais limpas,

viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.
Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.
Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando sem que soubesses, por tudo o que fazias.

[Fernando Assis Pacheco]