sexta-feira, 2 de maio de 2014

A manhã ser hoje, ser sempre


eu queria uma grande manhã, uma lúcida manhã sem cinzas, luminosa, quase quente, donde fosse possível avistar as brancas montanhas do tempo, donde fosse possível olhar o princípio de todos os caminhos e esperar.
e que não fosse tarde, que nunca fosse tarde nos seres amados, nem nos lugares por onde passámos e, nus, deixámos os olhos como uma nuvem sobre a morte.

[gil t. sousa]

Alguns solavancos


"Vivemos tempos de loucos amores,
só é feliz quem sabe o que quer."

As encruzilhadas que nos unem, que nos afastam





[Clem Crosby]

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Oh, mas esses tempos


Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu , que me esvaziaste de coisas incertas, 
e trouxeste a manhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer:
 « Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?»
Mas ensinaste-me a sermos dois;
e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor;
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba.
Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar:
com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

[Nuno Júdice]

Os lugares


"Misteriosa coisa é a memória dos lugares, o que deles ficou em nós (o que é, talvez, um modo particular de dizer «o que de nós neles ficou») quando irremediavelmente se transformaram -  e, com eles, tudo aquilo que uma vez fomos - em passado e distância."

[Manuel António Pina]

O que de ti se colou em mim


                                                            E partiu a mando dos teus pés


[kimama]

Ter um bicho ambíguo chamado amor


"I’m half afraid of myself. I sometimes feel that no one ever has or ever can share something—It’s the thing that makes you call me like a hill, or a rock. Again, I want everything—love, children, adventure, intimacy, work. (Can you make any sense out of this ramble? I am putting down one thing after another.) So I go from being half in love with you, and wanting you to be with me always, and known everything about me, to the extreme of wildness and aloofness."

[Numa carta de Virginia Woolf a Leonard Woolf]