domingo, 1 de junho de 2014

Olha:


Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

[Harold Pinter]

VII


Uma grande tosca,
Um jardim sem espaços,
Um banco ausente,
Onde ninguém se senta.
Ao alcance de um toque,
Uma folha cai
Uma pedra rola,
Um pássaro grita.

Deslizo sem margens.

Não páro.

De quem me esqueci lá dentro?

[Sebastião de Lorena]

Uma questão de braços


A desistência de Bukowski:

Eu era a soma de todos os erros: não tinha um deus, ideias, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante; dava muito trabalho. Eu queria mesmo era um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão.

Ou a luz ainda acesa de Gabriel García Márquez:

Arrastada pela família para separá-la do homem que a tinha violado aos catorze anos e continuou a amá-la até os vinte e dois, mas que nunca se decidiu a tornar pública a situação porque era um homem comprometido com outra. Prometeu-lhe que a seguiria até o fim do mundo, só que apenas mais tarde, quando resolvesse a sua situação, e ela tinha-se cansado de esperar por ele, reconhecendo-o sempre nos homens altos e baixos, louros e morenos que as cartas do baralho lhe prometiam pelos caminhos de terra e os caminhos de mar, para dali a três dias, três meses ou três anos. Na espera havia perdido a força das coxas, a dureza dos seios, o hábito da ternura, mas conservava intacta a loucura do coração.

Minudências


O que é mínimo não nos fere a mente e dessa forma pode elevar-se. Quando há demasiadas coisas à volta, perturba-me.

[David Lynch, citado pelo Público, 9 de Maio de 2014]

Endlessness runs in you like leaves on the tree of night





[Helena Almeida]

Dalla Barba, 517


Está bem. Vão passar meses
vai perder-se na bruma
dos bolsos não há nenhum
ardil.

Levantou os dedos para o adeus,
encostou a boca e o silêncio
enraizado nos cimentos
desmoronou na noite.

Não esperava não podia
esperar tanto vento
sobre esta vida.

[Fernando Luís]

A escorrência


De bruços sobre o lavatório, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez são mais humanos e mais fundos. É a respiração do ralo, que só então dou conta de que está dentro de mim, por uma dessas distorções a que é costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no próprio espelho, que, apesar de se encontrar à minha frente, não consigo deslocar do avesso dos meus olhos.
Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.
Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade - penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar, se escoam sem regresso em direcção ao caos.

[Luís Miguel Nava]