segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Algures na solidão tu me comoves com teus olhos feridos de mundo


29 março - quinta / 1984

monótonos dias atravessados de mar e barcos
monótonos dias inclinados em arco-íris
da minha varanda até às nuvens, chumbo
da tempestade - aves que regressam
apressadas pousam na praia suja de alcatrão
irremediavelmente perdida a brancura das areias
monótonos dias sujos mais sujos os que hão-de vir
brisa que me fustiga os dedos tamborilando
algures na solidão…
o vómito de ser espectador deste oceano

Porque será que não me mostras
o que se passa no teu fundo?


[al berto]

Tenho três caras apontadas a mim, o segredo é não fechar os olhos




[Renée Sintenis]

Se queres saber


Deixo-te o menos sombrio silêncio,
as gavetas arrumadas,
o chá no armário azul
da cozinha.

Para mim posso dizer mentiras
e deixas as coisas lembradas.
Poder mover-me onde não estás,
afastar algumas mágoas

evoca a primeira ausência
de raízes. O cansaço, o sarro
dos espíritos,
o violento olhar no verão,

os muros iluminados, lentas
todas estas coisas
sobem no esquecimento. E
irrompem ao contágio doutro corpo.

[Fernando Luís]

O lugar de onde fugimos tem um doce sabor a carne viva


 

[As Tears Go By /Dir. Wong Kar Wai]

O cume de um lugar sem palavras, sem ninguém



[Koyo Okada/ Mount Fuji]

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ao que virar


Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite


[Carlos Alberto Machado]