domingo, 13 de março de 2016
Considerações Sobre o Pecado, o Sofrimento, a Esperança e o Verdadeiro Caminho
Duas tarefas para a primeira parte da vida: restringires cada vez mais o teu círculo e tornares sempre a verificar se não estás escondido algures fora do teu círculo.
[Franz Kafka]
sexta-feira, 4 de março de 2016
O nome com que te terei nomeado foi certamente menos oblíquo do que devia ser
Passado, portanto, o período do sangue derramado e dos coágulos, dos estrógenos, mais tarde quando o sono do meu filho me deixava o meu sono e a vigília em silêncio, pensei apenas que tivesses morrido como qualquer outra imagem volúvel, e nunca eterna.
[Fiama Hasse Pais Brandão]
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Uma viagem chamada Sem Nome
dizes-me que a cama do teu quarto
está por fazer que saíste e todas
as lojas estavam fechadas hoje
está por fazer que saíste e todas
as lojas estavam fechadas hoje
é domingo que ontem sábado dissemos
muitas coisas muito amor gin beijos
se terei um pouco de pão ou de ternura
muitas coisas muito amor gin beijos
se terei um pouco de pão ou de ternura
para te emprestar
[Pablo Garcia Casado]
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Do que a fome dizia «És covarde» e eu era.
Alimentava-me
dos rostos atirados pela rede dos nervos
negros e as veias
até à raíz cravada
da voz
- o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos
[Herberto Helder]
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Organizar a solidão em três bocados para que se os coma melhor
Os amores
que não tive
(e foram
muitos)
moeram-me
o juízo
Também
não tive
muitos filhos
isto é
não tive
nenhum
Não
me queixo
O que
não foi
(e foi muito)
deu-me
muito trabalho
e muito
[Adília Lopes]
Até amanhã
O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada.
Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852.
Li nas Cartas Exemplares organizadas por Duda Machado.
Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico.
Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo.
Mas o nada do meu livro é nada mesmo.
É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc. etc.
O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras.
Fazer coisas desúteis.
O nada mesmo.
Tudo que use o abandono por dentro e por fora.
[Manoel de Barros]
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