quarta-feira, 25 de março de 2015

Ao cabo de longo tempo é a perda de Herberto que me faz regressar às palavras.

O dia vinte e três é um dia como outro qualquer para se morrer. Março, porém, mancha-se talvez de mofo e assim algo de triste muito sossegadamente vai fermentando nos passos que dou em volta deste país, agora seguramente mais pobre.

Esta é apenas uma breve nota sobre o fino fio de aço que as palavras certas
a cumplicidade que as palavras certas por alguém ditas
atam em nós.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

XIII


Eu não varri as folhas
Para que passasses sem dar por isso
Nem calei os pássaros
Para que não dissesses nada

Agarra-te às nuvens
Se puderes

E deixa-me morder em paz
Esta maçã
Que não tem bicho.

[Sebastião de Lorena]

Desígnios


- Diz-me como a amas, Will.
- Como a doença e a sua cura, juntas.

[Argumento de A Paixão de Shakespeare, Tom Stoppard]

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A mim alguém me deixou nas costas uma pedra como a de Sísifo, leva-la-ei comigo até ao esquecimento



[Ticiano]

Fosse eu essa Chepita e alguém viesse em meu socorro


Estás triste, é certo, mas tu não és tristeza, tu és alegria e serenidade e paz. Não vejas apenas um aspeto de ti mesma, um acidente da tua própria substância; tu és todas as coisas juntas, e o mar e as estrelas e o sol anunciam-se em ti.

[Jaime Sabines]

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Papéis selvagens



De súbito, surgiram as ovelhas. 
Num instante, num de baixar de olhos.
Por toda a paisagem e pela encosta do monte.
Eram cor de rosa, celeste. Sépia ou cor de platina;
as outras, brancas, negras.
Embora, por momentos, as coisas parecessem ao contrário.
Pensei que sonhava.
O que via num papel, desenhos em forma de ovelhas.
Mas não; era verdade.
Na paisagem.
E ao fechar os olhos aparecia a seguir, no ecrã negro,
um rosto rectangular, oval, e o corpo gordo, multiplicado,
sabiamente.
Pareciam ter acorrido à concentração,
convocatória, sem espanto, com alguma tristeza.
Não podia ir embora, por onde iria!
Não podia chamá-las, porque já aqui estavam.
Não podia afugentá-las, porque eram imóveis.
Não podia esquecê-las, porque não me esqueço.
Não podia aceitá-las, porque havia qualquer coisa
que não estava bem.
Eu estou entre a espada e a parede,
e isto é um pedido de ajuda.
[Marosa Di Giorgi]

Passagem do diário


Alguém sem contar me vê e me diz que o seu dia ficou melhor, mais bonito.
Diz que embora fugaz o encontro "já deu para sorrir".
E é isto, em suma é só isto, o que conta.

2 de Fevereiro de 2014