sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Uma daquelas histórias...
ou à janela no escuro a ouvir a coruja de cabeça vazia até ser difícil acreditar cada vez mais difícil de acreditar que alguma vez tivesses jurado amor a alguém ou alguém a ti até se tornar numa daquelas coisas que tu ias inventando para conter o vazio uma daquelas histórias para impedir que o vazio se viesse embrulhar num lençol.
[Samuel Beckett]
domingo, 6 de novembro de 2016
Nós embarcaremos dormindo. Assim vemos o que fica por sonhar.

[Paul Celan/Juan Esteban Reyes Dreisziger]
sábado, 29 de outubro de 2016
O tempo aprazado
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos.
E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
[Ingeborg Bachmann]
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
A flor antes de arrancada
Como a vida sem caderneta
como a folha lisa da janela
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela?
como a folha lisa da janela
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela?
Como o estar egípcio e mudado
no salão do navio de espelhos
como o nunca ter embarcado
ou só ter embarcado com velhos
no salão do navio de espelhos
como o nunca ter embarcado
ou só ter embarcado com velhos
Como ter-te procurado tanto
que haja qualquer coisa quebrada
como percorrer uma estrada
com memórias a cada canto
que haja qualquer coisa quebrada
como percorrer uma estrada
com memórias a cada canto
Como os lábios prendem o copo
como o copo prende a tua mão
como se o nosso louco amor louco
estivesse cheio de razão
como o copo prende a tua mão
como se o nosso louco amor louco
estivesse cheio de razão
E como se a vida fosse o foco
de um baço, lento projector
e nós dois ainda fôssemos pouco
para uma tempestade de côr
de um baço, lento projector
e nós dois ainda fôssemos pouco
para uma tempestade de côr
Um ao outro nos fôssemos pouco
meu amor meu amor meu amor
meu amor meu amor meu amor
[Mário Cesariny]
domingo, 25 de setembro de 2016
Amigo Luar: (Ou estar numa cidade que não nos sabe o nome)
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te ouço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te ouço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
[Carlos Oliveira]
domingo, 4 de setembro de 2016
Breve anotação:
Pensais, por acaso, que por crer
na imortalidade,
ela vos será dada?
Ela é obra da fé, do egoísmo,
da desolação.
Se existe, não importa que falte a crença:
respostas ignorantes são as humanas
se a morte interroga.
Andai lá com vossos ritos, oferendas aos deuses,
ou grandes monumentos funerários,
inflamadas preces, cega esperança.
Ou então aceitai o vazio que virá,
onde não há-de soprar sequer um vento estéril.
Aquilo que há-de vir será de todos,
pois não há mérito no nascimento,
nem nada que justifique a morte.
[Francisco Brines]
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