domingo, 10 de dezembro de 2017

Esse poema, é sobre o quê?

É sobre os problemas de auto-estima das bonecas insufláveis.
É sobre a vantagem das navalhas em relação às maquinas de barbear.
É sobre os efeitos da nicotina no acasalamento de lagartixas.
É sobre Super Bock, Famous Grouse e, em dias melhores, Glenlivet.
É sobre as ruas de Lisboa quando as acho suficientemente tristes.
É sobre o nada, minha única «matéria».
É sobre tremoços, amendois e Domenico Scarlatti.
É sobre as alterações climatéricas no Bairro da Serafina.
É sobre gatos mortos e outros que ainda não morreram.
É sobre os seios de Jeanne Hébuterne e as mãos de Glenn Glould.
É sobre o bife de lombo à portuguesa do Trivial e os filetes do polvo do Apuradinho.
É sobre política internacional, obviamente.
É sobre a cona da tua mãe, leitor.
É sobre Copenhaga, Barcelona, Paris e Celorico da Beira.
É sobre cáries dentárias, fundamentalmente.
É sobre coisas que preferia ter calado.

[Manuel de Freitas]

Mas o amor, que foi sempre outra coisa, há-de trazer-nos à boca o exacto lugar onde morreremos


não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.
havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.
eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.

[gil t. sousa]

É dançar, salvar-se? Sim, é dançar de cabeça para baixo

 
[Herberto Helder]





Se me haveis mordido de insaciedade



- Nenhum de vós! Seja qual for o céu
que vos encobre! Seja qual for a Idade
que vos deu! Já nenhum me fascina,
ó seres de pedra e mármore e cristal!
Não estremeço de espanto ou de beleza.
Se tudo o que me coube foi morrer,
espero da Esperança a glória do irreal.

Se vos amo, não sei se vos cantei.
Se vos deifiquei, já vos esqueço.
Se vos medi para além do que vos meço,
para aquém vos deixei.


Como erguer-vos acima dos infernos
de pó e cinza que a paixão criou?
E chamei-lhes eternos!
Que rio de miséria os afogou?

Nenhum de vós! Se estive de joelhos,
hoje levanto o olhar. O que de vós rasteja
sobre a Terra, a podridão do instante,
a perdição dos vícios, a razão de cantar,
está nas palavras presas, nas cadeias
que os séculos soluçam, a arrastar...

Nenhum de vós agora me escraviza.
Tão pequenos, pequenos almocreves!
Crianças das extáticas, divisas
e de infinitos breves!

Nenhum de vós! Não sei que epopeias
e astros e mansões
vos erguestes acima das areias!

Arrepiem-se as trevas e o silêncio
Do desprezo que alargo,
dos nomes que soterro, do amargo
anel de ferro que os recolhe.

Nenhum de vós, nenhum merece
que vos olhe!

Quero os cânticos só para além de mim,
de além dos cataclismos.
De além morte, de além caudais
de mundos em fusão.

Quero ver Deus criar de novo a vida;
uma nova manhã, um sabor novo a relva,
a maresia, à primeira canção...
Os passos do amor na noite fresca,
a primeira e imprecisa solidão.

Quero ver Deus, terrível, frente a frente.
Ver os primeiros lagos, ver os primeiros monstros,
ver-me de onde é que eu vinha.

Quero ver Deus criar de novo a Morte
e que a primeira morte seja a minha.

[Natércia Freire]

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Que eu encontro meu corpo como uma estátua aonde pombas vêm adormecer


Não tardará a chegar ao fim
este agosto que te viu passar com a luz
a teus pés. Somos eternos, dizias.
Eu pensava antes na danação
da alma ao faltar-lhe o alimento
que lhe trazias. Agora a cidade vive
do peso incomensuravelmente morto
dos dias sem a tua presença. Deixo
a mão correr sobre o papel tentando
captar o eco de uma palavra,
um sinal de quem em qualquer parte
cintila, e confia ao vento o segredo
da nossa tão precária eternidade.
[Eugénio de Andrade]

What she knew


People did not know what she knew, that she was not really a woman but a man, often a fat man, but more often, probably, an old man. The fact that she was an old man made it hard for her to be a young woman. It was hard for her to talk to a young man, for instance, though the young man was clearly interested in her. She had to ask herself, Why is this young man flirting with this old man?

[Lydia Davis]