Eu tinha dois desejos e um lutava com o outro.
domingo, 14 de maio de 2023
domingo, 5 de fevereiro de 2023
Um fantasma do passado;
E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa da televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu...
terça-feira, 31 de janeiro de 2023
Ele é pequeno como uma pulga
Não, meu coração não é maior que o mundo.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
A ver o mar
Triste horto abandonado a alma
é cingida por selvagens sebes
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
Cansaço de viver ou o problema da habitação
Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e que não se quer mais nada. Cansaço dos Beatles. E cansaço também daqueles que não os são. Cansaço inclusive de minha liberdade íntima que foi tão duramente conquistada. Cansaço de um amar o outro. Melhor seria o ódio. O que me salvaria dessa impressão de fartura - é fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? - seria a raiva. Não um tipo de raiva amorosa que existe. Mas a raiva simples e violenta. Quanto mais violenta, melhor. Raiva dos que não sabem de nada. Raiva também dos inteligentes do tipo que “dizem coisas”. Raiva do cinema novo, por que não? E do outro cinema também. Raiva da afinidade que sinto com algumas pessoas, como se já houvesse fartura de mim em mim. E raiva do sucesso? O sucesso é uma gafe, é uma falsa realidade. A raiva me tem salvo a vida. Sem ela o que seria de mim? Como suportaria eu a manchete que saiu um dia no jornal dizendo que cem crianças morrem no Brasil diariamente de fome? A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa. E tenho raiva de sentir tanto amor. Há dias que vivo de raiva de viver. Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. Bem sei que isso vai passar, e que a carência necessária volta. Então vou querer tudo, tudo! Ah como é bom precisar e ir tendo. Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter. Mas ter facilmente, não. Porque essa aparente facilidade cansa. Até escrever está sendo fácil? Por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta dos dedos? É um pecado, bem sei, querer a carência. Mas a carência de que falo é tão mais plenitude do que essa espécie de fartura. Simplesmente não a quero. Vou dormir porque não estou suportando este meu mundo de hoje, cheio de coisas inúteis. Boa noite para sempre, para sempre. Até sábado que vem. E não me respondam: não quero ouvir a voz humana. E se suporto a minha voz se despedindo é porque ela piora de muito a minha raiva. Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam.
[Clarice Lispector]
O desejo quando sai furado
Anoitecia cedo, e eu sufocava de tristeza e nostalgia. Ainda não tinha tempo de fazer amizades, os meus trabalhos de laboratório estavam indecisos, e em vão tentava interessar-me pela gente com quem, ocasionalmente, entrava em contacto. Saía de manhã, ainda sem sol, e reentrava ao prematuro entardecer. Tinha levado anos a sonhar com a independência, que nem usufruíra a meu gosto, e agora, senhor de mim, sentia-me de repente incapaz de usar dela. O “estrangeiro” desiludia-me aos primeiros contactos, e eu retraía-me. A verdade, não tardaria em sabê-lo, é que a liberdade pessoal e o sossego se pagam em solidão, tributo o mais pesado. Por contraditório que pareça, só a presença de outros seres humanos acorda em nós as reacções que nos forçam a pensar, a mobilizar os conhecimentos, e a agir. Isto explica como é que eu nunca consegui viver sozinho nem longe — duas coisas que desejava ardentemente. E também porque nunca fui feliz na companhia de ninguém, nem tornei felizes senão aqueles que, de mim, só conhecem as aparências. Mas esta dialéctica da misantropia (ou timidez) não será demasiado especiosa para ti, Léah?
[José Rodrigues Miguéis]
domingo, 20 de novembro de 2022
Encostar à parede, senti-la fria nas costas, nas coxas; abrir uma palavra ou outra
[Scène d'intérieur, Jacques Jean, 2 novembre 1926, autodrome]
