sábado, 3 de fevereiro de 2018

Estou habituada ao desespero



Na minha noite, infelizmente tão curta
o vento está prestes a encontrar-se com as folhas
das árvores
na minha noite, tão breve, e plena de uma angústia devastadora
ouve
ouves o sussurro das sombras?
esta felicidade é-me desconhecida
estou habituada ao desespero.

Ouves o sussurro das sombras?
ali, na noite, algo acontece
a lua é vermelha e ansiosa
e sobre este telhado
que a qualquer momento pode ruir
as nuvens, qual procissão de carpideiras
aguardam o nascimento da chuva.
Um segundo
depois nada
atrás desta janela a noite treme
e a terra pára de girar
atrás desta janela
qualquer coisa desconhecida inquieta-se comigo e contigo

Tu, verde dos pés à cabeça
coloca as tuas mãos, essas memórias
escaldantes,
nas minhas mãos amorosas
entrega os teus lábios ao toque
dos meus lábios amorosos
repletos do calor da vida
o vento levar-nos-á
o vento levar-nos-á.

[Forough Farrokhzad]

Eu vislumbrei: Era Igny e os seus terríveis olhos



Perhaps everything that frightens us is, in its deepest essence, something helpless that wants our love.

[Rainer Maria Rilke]

sábado, 23 de dezembro de 2017

Não se mate


Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
[Carlos Drummond de Andrade]

Eu fiz por dançar no teu compasso; mas perdi-lhe o jeito de tanto empurrão

 
duele pero nos mantiene vivos
que el olor salvaje del recuerdo
muerda de tanto en tanto el corazón
[ Rocío Wittib]

sábado, 16 de dezembro de 2017

I walk a little faster


Falas verdade , amigo Tristão. Sinto como tu que o sortilégio chegou ao fim.
O nosso amor continua, como dizes mais forte que nunca, mas cessou de ser uma coacção mágica, uma força exterior, invencível e fatal. Vamos amar-nos agora como os 
outros homens e as outras mulheres desde que o mundo é mundo; ei-nos restituídos à condição de mortais. Doravante estaremos sujeitos aos caprichos do destino, à flutuação dos nossos desejos a todos os movimentos contrários, a todos os remorsos das nossas vontades. Daí vem que a esta hora, sem cessarmos de nos amar, estaremos a conceber o projecto de nos separarmos.

[Tristão e Isolda]

Desarticular o teu nome que em minha boca é um néctar cheio de veneno

crumbargento:
“A Candle for the Devil - Eugenio Martí - 1973 - Spain
”