domingo, 10 de novembro de 2019

A noite a latir na memória


Não podia deixar de amá-la porque o esquecimento não existe
e a memória é um mutatis mutandis, de maneira que sem querer
amava as distintas formas sob as quais ela aparecia
em sucessivas transformações e aflorava-me a nostalgia de todos os lugares
aonde jamais havíamos estado, e desejava-a nos parques
em que nunca a desejei e morria de reminiscências pelas coisas
que já não conheceríamos e eram tão violentas e inolvidáveis
como as poucas coisas que havíamos conhecido.

[Cristina Peri Rossi]

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O despojamento donde despertará o coração


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos connosco, pois o resto não nos pertence.

[Cecilia Meireles]

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

É claro que a dor é uma barco à deriva


Many loved before us, I know
that we're not new...
- podia começar assim,
com uma dessas canções
profanas e furibundas
a que se regressa sempre
nos partidos tempos da vida.

Mas não creio que o alento possa voltar
a ser o daquelas manhãs de Junho
em que uma despedida precoce ditou leis
que eu cumpri demasiado bem.
Que tem isso a ver contigo, dirás,
e a resposta cala-se no meu peito,
asfixia lentamente nas sílabas
do teu nome em forma de punhal,
enquanto eu, o próprio, ando por aí
a ver passar os navios que já não passam
e a preparar tabernas disponíveis
para a velhice que virá.
Já não sou, acredita, esse príncipe
de um reino que quis imundo e breve.
E sei agora que as algemas do amor
doem mais quando os pulsos mal abertos
calafetaram a memória numa travessa
sem espera. De pouco serve importunar-te:
és apenas o álibi dilacerante
de um poema que eventualmente terá
alguma coisa a ver comigo, nada
que mereça a pena que aliás nada merece.
E hás-de ter uma vida, uma família, um cão,
como toda a gente tem mesmo que não tenha,
inventando paliativos cheios de calor,
do sossego, que nunca curaram ninguém
da peste real do amor: esta vontade
de beber por mãos alheias o sangue derramado,
suspenso num sorriso em chamas
sobre o qual já tudo foi dito e ainda nada.
Que te protejam, na noite serrada,
as mais frias certezas e a boca da catástrofe
que não beijou nem quis o poema inacabável.

[Manuel de Freitas]

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Os amantes desencontrados


«Deste um nome de incêndio a certas palavras.
Contigo eu não pisava o chão, era a amada voadora.
Feriste, feriste-me sem remédio. Como esquecer
que minavas meus próprios alicerces?
Que abanavas paredes, soltavas telhas
por onde entrava a tua inquietação?
Foste dentro de mim uma Primavera
tempestuosa. Por isso me deixaste,
e os dias correm, sem fronteiras.»
«Recordo-me bem, eu soube nesse domingo
que era como a água em Azenhas do Mar;
que rebento; e destruo; e não arranjo poiso.
E que toda esta bruteza é um ciclone
centrado, quem diria, a Noroeste dos Açores.
De mim deve sobrar-te a espuma
que trazem as marés vivas no equinócio.
De mim deve ficar um vento,
a fúria dum vento no teu cabelo.»

[Fernando Assis Pacheco]

domingo, 13 de outubro de 2019

O voo rápido do teu cheiro; que é sempre outra coisa


Jamais tive eu amor senão por ti.
Paixões o vento as trouxe e as levou
Qual ave migratória que pousou
Em temporário ninho onde vivi.
Amor, porém, é ave que povoa
O coração da gente e nele exulta
E ocupa de outra ave mais estulta
O coração partido e o perdoa.
Mas que fazer, se amor o dei ao vento
E sinto o coração ninho vazio
E sinto um grão calor e grande frio
E amo em oração no meu convento?
Eu amo quem amei e me deixou;
Não amo quem pousou — só quem voou.

[Daniel Jonas]

Hasta yo te encontraría/ Como el río va a la mar



[Sines, Agosto 2019]

Um dó-li-tá


Às vezes entre a noite e a manhã
Vejo os cães rodearem-te
Cães com os dentes à mostra
E tu deitas as mãos às suas patas
E ris nos seus dentes
E eu acordo a transpirar de medo
E sei que te amo.


[Heiner Müller]

Tudo aquilo em que não se crê permanece decorativo




[Jean Cocteau / Porto Covo, Agosto 2019]

NOITE ESCURA: Canto de Ifigénia


Quando eu nascer outra vez
quero nascer sem idade
filha da mãe que me fez
e de um homem sem maldade

Hei-de nascer numa esquina
onde o diabo passou
quando a noite for menina
tão menina como eu sou

Hei-de nascer numa esquina

Quando eu nascer novamente
quero nascer para trás
mudando completamente
para me tornar rapaz

Hei-de nascer numa praça
Dos olhos de uma rameira
olhando a gente que passa
até morrer de cegueira

Noite de enganos
Noite de enganos
Que me fizeste mulher

Quando eu nascer outra vez
quero nascer sem idade
filha da mãe que me fez
e de um homem sem maldade

Hei-de nascer numa esquina
onde o diabo passou
quando a noite for menina
tão menina como eu sou

Hei-de nascer numa esquina

Quando eu nascer novamente
quero nascer para trás
mudando completamente
para me tornar rapaz

Hei-de nascer numa praça
Dos olhos de uma rameira
olhando a gente que passa
até morrer de cegueira


Noite de enganos
Entre perdas e danos
Não ganhei nem perdi nada

"Noite de Enganos"
Regina Guimarães /Ana Deus/ Alexandre Soares
interpretação de Cleia Almeida e Ana Deus

My life is a perfect graveyard of buried hopes



[L.M. Montgomery]

Um trago só de teu nome fugaz, incalculável



[Nisyros, Agosto 2019]

Senti um Vazio no Começo, Quando o Coração Foi Embora, Mas Agora Está Tudo Bem



[Lucy Kirkwood/ Bodrum Agosto 2019]

The Dying Animal


The only obsession everyone wants: love. People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you’re whole before you begin. And the love fractures you. You’re whole, and then you’re cracked open.
[Philip Roth]

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A orfandade de estar triste


I always feel abandoned by those who are laughing and talking as if they had left me out, whereas it is I who get cut off by my own nature and separateness.

[Anais Nin]

Teria uma ave aonde jazia teu toque


[Alain Fleischer - Dans le cadre du miroir, 1984]



O que é um beijo se eu posso ter o teu olhar




Minha vida aquebrantada


Os séculos desfilavam num turbilhão e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias –, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, húmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpétuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

[Machado de Assis]

Quem te disse que o amor não é afinal o coração a persignar-se?


[Twin-human-headed tomb with mystical patterns in a Zaza cemetery, Turkey]



Aguardo o retorno de quem não virá, não jamais virá

no help for that

there is a place in the heart that
will never be filled

a space

and even during the
best moments
and
the greatest times
times

we will know it

we will know it
more than
ever

there is a place in the heart that
will never be filled
and

we will wait
and
wait

in that space


[Charles Bukowski]

Tens olhos azuis, penso, tens olhos como eternidade orbitando

Dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e rosada
como a proa de um barco
bateira que me trás os dados e a roleta onde no branco
ou no preto devo jogar
jogando-me contigo
bem-me-quer
malmequer
ou muito ou pouco
ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito

[Mário Cesariny]

O céu de Agosto em tuas mãos nas minhas costas

Sim – digo-te, pousando as mãos nos teus joelhos - desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e saiba ler.

- Alguém que queira ressuscitar para ti?

- Sim, alguém que tenha para comigo essa memória. Alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre à próxima que vou escrever. Alguém que admita que a cartografia dos animais e da pontuação não está ainda estabelecida. Alguém que eu possa ler diferentemente depois de me ler. Alguém que dirá aos animais e às plantas que nem sempre serão servos. Alguém que ao nos amarmos se reconheça de matéria estelar.

[Maria Gabriela Llansol]

terça-feira, 23 de julho de 2019

Tulipas

The tulips are too excitable, it is winter here.
Look how white everything is, how quiet, how snowed-in.   
I am learning peacefulness, lying by myself quietly
As the light lies on these white walls, this bed, these hands.   
I am nobody; I have nothing to do with explosions.   
I have given my name and my day-clothes up to the nurses   
And my history to the anesthetist and my body to surgeons.

They have propped my head between the pillow and the sheet-cuff   
Like an eye between two white lids that will not shut.
Stupid pupil, it has to take everything in.
The nurses pass and pass, they are no trouble,
They pass the way gulls pass inland in their white caps,
Doing things with their hands, one just the same as another,   
So it is impossible to tell how many there are.

My body is a pebble to them, they tend it as water
Tends to the pebbles it must run over, smoothing them gently.
They bring me numbness in their bright needles, they bring me sleep.   
Now I have lost myself I am sick of baggage——
My patent leather overnight case like a black pillbox,   
My husband and child smiling out of the family photo;   
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

I have let things slip, a thirty-year-old cargo boat   
stubbornly hanging on to my name and address.
They have swabbed me clear of my loving associations.   
Scared and bare on the green plastic-pillowed trolley   
I watched my teaset, my bureaus of linen, my books   
Sink out of sight, and the water went over my head.   
I am a nun now, I have never been so pure.

I didn’t want any flowers, I only wanted
To lie with my hands turned up and be utterly empty.
How free it is, you have no idea how free——
The peacefulness is so big it dazes you,
And it asks nothing, a name tag, a few trinkets.
It is what the dead close on, finally; I imagine them   
Shutting their mouths on it, like a Communion tablet.   

The tulips are too red in the first place, they hurt me.
Even through the gift paper I could hear them breathe   
Lightly, through their white swaddlings, like an awful baby.   
Their redness talks to my wound, it corresponds.
They are subtle : they seem to float, though they weigh me down,   
Upsetting me with their sudden tongues and their color,   
A dozen red lead sinkers round my neck.

Nobody watched me before, now I am watched.   
The tulips turn to me, and the window behind me
Where once a day the light slowly widens and slowly thins,   
And I see myself, flat, ridiculous, a cut-paper shadow   
Between the eye of the sun and the eyes of the tulips,   
And I have no face, I have wanted to efface myself.   
The vivid tulips eat my oxygen.

Before they came the air was calm enough,
Coming and going, breath by breath, without any fuss.   
Then the tulips filled it up like a loud noise.
Now the air snags and eddies round them the way a river   
Snags and eddies round a sunken rust-red engine.   
They concentrate my attention, that was happy   
Playing and resting without committing itself.

The walls, also, seem to be warming themselves.
The tulips should be behind bars like dangerous animals;   
They are opening like the mouth of some great African cat,   
And I am aware of my heart: it opens and closes
Its bowl of red blooms out of sheer love of me.
The water I taste is warm and salt, like the sea,
And comes from a country far away as health.

Sylvia Plath