quarta-feira, 1 de junho de 2016

Mas a vida, Ainda Sem Nome, a vida faz minhas costas vergar de condolências





[The Repentant Magdalen (1870), Alphonse Cornet]

Em alguns capítulos menos felizes


Quando vivemos tanto que temos de pagar excesso
há algo no amor como uma luz suicida,
é talvez só isso,
havendo amores que duram algo menos que um beijo,
e beijos que duram algo mais que uma vida.

[Luis Rosales]

Para que conste:


Não tenho
      paciência para os outros
      Não sou
      cristã

      Ou
      não estou
      cristã

      Tenho
      uma crista

      Sou vaidosa
      como Eva
      Sou má

      Sou mazinha.

[Adília Lopes]

Que tal nos encontrarmos para um café tardio, um beijo tardio, tua mão tardia





Consolações ou os desertos


Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes
no meio
cresce
insondável
o vazio...
[Ana Paula Tavares]

Under all this dirt the floor is really very clean.


mirrorsandall:

[to reach]
Sophie Jodoin

[Lydia Davis/Sophie Jodoin]

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Os pés da intimidade


As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.

[Herberto Helder]