Quando vivemos tanto que temos de pagar excesso há algo no amor como uma luz suicida, é talvez só isso, havendo amores que duram algo menos que um beijo, e beijos que duram algo mais que uma vida. [Luis Rosales]
As barcas gritam sobre as águas. Eu respiro nas quilhas. Atravesso o amor, respirando. Como se o pensamento se rompesse com as estrelas brutas. Encosto a cara às barcas doces. Barcas maciças que gemem com as pontas da água. Encosto-me à dureza geral. Ao sofrimento, à ideia geral das barcas. Encosto a cara para atravessar o amor. Faço tudo como quem desejasse cantar, colocado nas palavras. Respirando o casco das palavras. Sua esteira embatente. Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas. Colocado no ranger doloroso dos remos, Dos lemes das palavras.
É o chamado rio tejo pelo amor dentro. Vejo as pontes escorrendo. Ouço os sinos da treva. As cordas esticadas dos peixes que violinam a água. É nas barcas que se atravessa o mundo. As barcas batem, gritam. Minha vida atravessa a cegueira, chega a qualquer lado. Barca alta, noite demente, amor ao meio. Amor absolutamente ao meio. Eu respiro nas quilhas. É forte o cheiro do rio tejo.
Como se as barcas trespassassem campos, a ruminação das flores cegas. Se o tejo fosse urtigas. Vacas dormindo. Poças loucas. Como se o tejo fosse o ar. Como se o tejo fosse o interior da terra. O interior da existência de um homem. Tejo quente. Tejo muito frio. Com a cara encostada à água amarela das flores. Aos seixos na manhã. Respirando. Atravessando o amor. Com a cara no sofrimento. Com vontade de cantar na ordem da noite.
Se me cai a mão, o pé. A atenção na água. Penso: o mundo é húmido. Não sei o que quer dizer. Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa como não saber nada. É ser puro, existir ao cimo. Atravessar tudo na noite despenhada. Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água, da carne. Como para cantar nas barcas. Morrer, reviver nas barcas.
As pontes não são o rio. As casas existem nas margens coalhadas. Agora eu penso na solidão do amor. Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar, o que acompanha o amor. Acompanha o amor algum peixe subtil. [Herberto Helder]