terça-feira, 19 de julho de 2016
Mas e então o que faço com esta vida, Margarida?
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
—Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
[Álvaro de Campos]
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Era uma voz que cantava: «Your love leaves me cold»
You left me, sweet, two legacies,—
A legacy of love
A Heavenly Father would content,
Had He the offer of;
A legacy of love
A Heavenly Father would content,
Had He the offer of;
You left me boundaries of pain
Capacious as the sea,
Between eternity and time,
Your consciousness and me.
Capacious as the sea,
Between eternity and time,
Your consciousness and me.
[Emily Dickinson]
Era uma voz que cantava: «Your love leaves me cold»
You left me, sweet, two legacies,—
A legacy of love
A Heavenly Father would content,
Had He the offer of;
A legacy of love
A Heavenly Father would content,
Had He the offer of;
You left me boundaries of pain
Capacious as the sea,
Between eternity and time,
Your consciousness and me.
Capacious as the sea,
Between eternity and time,
Your consciousness and me.
[Emily Dickinson]
Um lugar quase a sós
É certo que desde sempre
Aos dias são sem amor
Cada aurora imperdoável
Cada carícia infame
E cada riso uma injúria
Aos dias são sem amor
Cada aurora imperdoável
Cada carícia infame
E cada riso uma injúria
Ouço-me e tu me ouves
Uivar como um cão perdido
Contra a nossa solidão
O nosso amor precisa mais
De amor que a erva da chuva
Uivar como um cão perdido
Contra a nossa solidão
O nosso amor precisa mais
De amor que a erva da chuva
Ele precisa de ser um espelho
[paul éluard]
És tu ao fundo das imagens, o teu rosto contra a almofada em sinal de esquecimento
Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.
[Yannis Ritsos]
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