sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Tão só que nem me ocorre a ideia de estar só


Esquecera aquela tarde de Agosto, há pouco mais de um ano, quando se tinham sentado sozinhos sobre a relva debaixo dos bordos, vendo o temporal a varrer o vale do rio e a subir na direcção deles, e então o tema fora a morte. E Port dissera: «A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrível precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido. Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância, uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a tua vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Talvez nem tanto. Quantas vezes mais contemplarás a lua cheia a erguer-se? talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado.

[Paul Bowles]

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