quinta-feira, 5 de novembro de 2015

As coisas como foram



Supõe que ainda é Agosto e não estás longe
desta cidade que ainda guarda
os últimos vestígios daquela altiva chama do verão
que lentamente foi, como tudo, morrendo;     
imagina que ainda estás aqui, comigo,
na paz desta casa que a luz torna formosa
e busca na memória o esplendor dourado
dos dias perfeitos que nela — porque assim
o desejou algum deus de olhar propício —
vivemos juntos, alheios a tudo o que não fosse
nossa própria alegria de estar juntos.

      Recorda.
                      Olha. Olha essas gloriosas
manhãs: acordaste há momentos,
e esperas em silêncio que eu abra os olhos
para me dares os bons-dias e dizeres-me — hoje também —
que és feliz.
          E apontas-me depois
esse raio de sol que entra pela janela
e aqui, junto à cama, no chão, desenha
um doce charco de ouro.
                                        Não deixes que se apaguem
de tua alma os risos desse tempo,
as palavras ardentes que soavam
como um cristal finíssimo e enchiam de música
as horas do amor: o espaço inocente
da paixão satisfeita nas radiosas noites
que nossos corpos conquistaram.

                                                       Contempla estas imagens,
a esquece-te desse lugar em que agora
para teu desgosto e meu desgosto habitas:
ruas cheias de outono, gente que desconhece
nossa história, terras que não são tuas,
e esse rio que em nada se parece
a este nosso daqui, que sob o sol corre
através dos hortos.

                                Oxalá sempre leves
contigo, a cada instante, minha recordação,
e estas palavras que na noite escrevo
pensando em ti, para que tu as leias,
te ajudem a estar só,
                                   e te acompanhem.

[Eloy Sánchez Rosillo]


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Um inerte dia


É domingo hoje

mas nós não saímos

é o único dia

que não repetimos

e que dura menos


Mas põe o teu rouge

que eu mudo a camisa

não como quem

de ilusão
precisa

Tomaremos chá

leremos um pouco

e iremos à varanda

absortos

[António Reis]

Desabitai-me a beleza que bati na pedra, abaixado e louco.



[Herberto Helder/Picasso]

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Não tenho lugar para tantos lugares comuns


You remember too much, my mother said to me recently. Why hold onto all that?
And I said, Where can I put it down?


[Anne Carson]

As dificuldades das faculdades da memória


Poder e não poder
dizer o teu nome sem que me rebente 
dentro do estômago, dos intestinos, dos pulmões
a faca de infecções de que poderei morrer. 


[Joaquim Manuel Magalhães]

Datas


Passam-se as datas
Vão-se as emoções
Diluem-se os dias
Em contradições.

Agora se chora
Logo se ri,
Perdi o meu sonho
Perdendo-te a ti.

Mas as datas voltam
E os dias não,
Para que servem as datas
No meu coração.

[A. Neves Pinheiro]

Tão só que nem me ocorre a ideia de estar só


Esquecera aquela tarde de Agosto, há pouco mais de um ano, quando se tinham sentado sozinhos sobre a relva debaixo dos bordos, vendo o temporal a varrer o vale do rio e a subir na direcção deles, e então o tema fora a morte. E Port dissera: «A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrível precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido. Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância, uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a tua vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Talvez nem tanto. Quantas vezes mais contemplarás a lua cheia a erguer-se? talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado.

[Paul Bowles]