segunda-feira, 12 de maio de 2014

Diários


 25-Julho (domingo).

Fui, como vou frequentemente, visitar o Ramos Rosa. Lá estava, com o seu ar escangalhado, sepulto numa imensidão de livros. E queixando-se, como de costume, das suas desgraças físicas. Eu levei, para contrabalançar, as minhas próprias físicas e morais. E sentimo-nos ainda mais aproximados, nesse equilíbrio de calamidades. Agora o que o perturba é a fixação obsessional em frases que lê, palavras que ouve, e uma paralela amnésia do que está para além disso. Mas aí mesmo eu tinha material próprio para equilibrar. Dei-lhe a minha receita: ler outra coisa, ouvir música, vir à varanda tomar sol. Porque o seu ambiente é mefítico com a poeirada dos livros, o acanhamento do espaço para respirar. Ouviu-me, não muito convencido. Veio à porta despedir-se. E lá o deixei, vago, as calças dependuradas dos suspensórios, a palavra lenta e embaraçada. No fundo sentia-me um tanto contente, porque nos meus conselhos dados de alto esquecia um pouco as minhas desgraças de baixo.

[Vergílio Ferreira]

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